Em defesa da guarda responsável

Adotar um mascote é uma decisão séria. Arrepender-se e devolvê-lo para um abrigo costuma ser traumático



Publicação: 08/04/2011 17:57 Atualização: 08/04/2011 19:24
 

“A crueldade do homem é tamanha que nem os animais escapam.” É assim que o casal Angélica Bessa, advogada, 42 anos, e Fernando Bessa, engenheiro, 51, manifesta a indignação de ver a “devolução” de animais anteriormente adotados. Desde 2010, os dois são voluntários no Augusto Abrigo, lar especializado no acolhimento de bichos abandonados. Atualmente, a instituição abriga 329 cachorros e 202 gatos — todos à espera de um gesto de solidariedade.

Angélica e Fernando deram nova esperança à vida de Serena, uma carismática vira-lata (Breno Fortes/CB/D.A.Press)
Angélica e Fernando deram nova esperança à vida de Serena, uma carismática vira-lata
Angélica até hoje se emociona com a história de Serena, uma cadelinha que vivia com um morador de rua antes de chegar ao abrigo. Serena sofria maus tratos os mais cruéis possíveis, conta a advogada. “Foi até bom ela ser abandonada porque assim teve cuidados e muito amor”, diz. A vira-lata rapidamente se adaptou à nova rotina e superou os problemas do passado. Ganhou também um novo lar. “Foi amor à primeira vista: acabei adotando minha lindinha”, revela. Infelizmente, nem todos os animais se recuperam com tanta facilidade. A bancária Ana Carolina Rabelo de Araújo Gonçalves, 34 anos, também voluntária do abrigo, adotou a cadelinha Malu — um típico caso de depressão animal. “Ela era arredia e tinha medo de todo mundo. Não conseguia se movimentar direito por conta da patinha amputada e comia deitada”, relata. Ela adverte que a decisão de adotar deve ser muito bem pensada para que não ocorra novo abandono. “As pessoas têm que ver se possuem paciência e tempo, pois, muitas vezes, o bicho tem traumas. É preciso muito amor”, resume.
O abandono atinge mais os cães e costuma estar relacionado a motivos banais. “Teve casos aqui no abrigo que as pessoas adotaram um cão sem raça definida, após um tempo e o devolveram porque compraram um de raça”, relata a advogada. Às vezes, as pessoas ignoram os gastos que um animal proporciona e se arrependem da adoção. Também é comum o abandono depois de constatado que o pet é agitado. Já no canil da Zoonoses (que conta atualmente como 2.915 animais), o que mais se vê são cachorros e gatos doentes e deprimidos.

Animais nesse estado precisam de atenção redobrada. “O novo lar deve ser mais atraente e seguro que o abrigo, do ponto de vista canino. Para nós, é óbvio que uma casa de família com todo o conforto, cama quentinha, comida no prato e muito amor seja muito melhor que o abrigo”, explica a veterinária Alida Gerger, consultora comportamental da ONG Cão Cidadão e co-autora do livro Cão de família (Ed. Agir). Basicamente, o tratamento visa a prática de atividades motivacionais, como exercícios e brincadeiras.
O veterinário Laurício Monteiro, responsável pela Gerência de Controle de Reservatórios e Zoonoses, explica que o órgão procura desenvolver projetos que incentivem a posse responsável de animais. A campanha tem dois objetivos: poupar os bichos de sofrimentos e incrementar a saúde pública, com o controle mais efetivo de doenças. “Os animais são entregues aqui com o maior desprezo com a vida deles”, critica. “Acima de tudo, respeite os animais”, reforça Angélica Bessa.

Depressão
Mudanças bruscas na rotina do mascote podem o levá-lo à tristeza patológica. Segundo a veterinária Alida Gerger, a depressão animal não é igual à humana e raramente dura longos períodos. “Ela está relacionada a algum período em que ocorreu uma mudança importante na vida do cachorro. Entre as causas mais relatadas, está a morte de pessoas ou de animais próximos. Um viagem do dono também pode afetá-lo”, exemplifica.

Drama com final feliz
 (Angélica Bessa/Arquivo pessoal)
Piratinha, agora rebatizado de Cisco, chegou ao abrigo ainda novo. Passou por problemas de saúde, normais por conta da idade. Um dia foi adotado. Ficou 40 dias na casa nova, onde tinha tudo do bom e do melhor. Mas durou pouco. A adotante devolveu o cão, pois ele como todo filhote, mordia chinelos, móveis e latia. Quando voltou para o abrigo, certamente ficou com saudades da casa que o abrigou, ficou triste, mudou seu temperamento que era alegre e saltitante, ficou apático e perdeu a alegria. Ficava paradinho no pátio, em meio a toda aquela barulhada e brincadeiras dos outros cães. Mas foi adotado novamente. Felizmente, o casal Lara Augusta Eugênio Pinto e Fernando Sasse Duarte se sensibilizaram com a trajetória dele e o levaram para o novo lar. Hoje, ele tem uma vida tranquila.
Conheça outras histórias como essa no site: www.augustoabrigo.blogspot.com.

Agradecimento: Augusto Abrigo e Cão Cidadão (http://www.caocidadao.com.br)


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