Chega de pirraça

Eles fazem de tudo para chamar a atenção e não conseguem ficar sozinhos? Então é hora do dono procurar ajuda profissional.

Para criar um animal de estimação saudável é preciso carinho, comida e um lugar protegido, correto? Quase. Uma boa dose de psicologia animal também é bem-vinda. Isso porque muitos bichinhos desenvolvem fobias, manias, podem se tornar agressivos, possessivos, inseguros e ciumentos. Mas a natureza é sábia, quando estão padecendo de algum desses transtornos, os bichos dão sinais. Comportamentos inadequados, que lembram caprichos de crianças, muitas vezes podem indicar que o seu cãozinho está sofrendo. A Revista conversou com alguns especialistas que orientaram sobre como proceder nesses casos.
Tem animal que apronta — e muito — quando os donos saem de casa. Uns fazem xixi onde não deveriam, outros escondem objetos, tem aqueles que mordem a mobília e comem as plantas. Muitos não param de latir, sobretudo se os donos viajam. Existem os que entram em depressão, os que fazem greve de fome etc. Quando a coisa chega a esse ponto, o que fazer?
A criação dos bichos é fator determinante nesse tipo de quadro, alerta a veterinária Rúbia Burnier, especialista em comportamento animal. Muitas vezes, os donos exageram na dose, dão muita atenção, dormem com seus pets e acabam por deixá-los extremamente dependentes. “Isso pode ser prevenido desde a infância deles, com uma criação voltada para estimular a independência e a autonomia. Com uma rotina em que tenham atividade física, contato social com outros cães e uma área da casa só para eles, onde possam brincar sozinho, sentindo-se seguros e não abandonados”, afirma.
A dependência dos pets costuma estar relacionada à chamada ansiedade de separação. O animal se sente muito inseguro com a ausência do dono e toma atitudes inconvenientes, mas que trazem sensação de alívio. O xixi descontrolado é sintoma clássico desse tipo de transtorno. Segundo Burnier, cães que urinam na casa inteira o fazem para se apropriar do ambiente. “É a forma que eles encontram para se sentirem mais seguros e garantir que não serão ameaçados sem a presença do dono”, explica.
A veterinária Hannelore Fuchs, também especialista em comportamento animal, atenta para o fato de que os cães não se comportam de maneira inconveniente por birra. “Os animais não fazem por vingança — a ausência do dono bagunça o raciocínio deles.” Segundo ela, a ideia de que o animal faz pirraça e, por isso, comporta-se de maneira inadequada é uma interpretação humanizada do comportamento deles . “O que os cães têm genuinamente parecido com os seres humanos é a possessividade e o ciúme”, esclarece.
Há casos em que o bicho é tão ciumento que o dono não pode receber visitas. Eles são capazes de interromper as conversas com latidos estridentes e pular em cima dos convidados. Segundo Hannelore, as pessoas criam animais possessivos ao cederem a todas as vontades deles. “Os donos estimulam a dependência, dão muita atenção o tempo todo. É importante que os cães desenvolvam independência psicofísica dos donos”, avisa.
E quando o problema já está instalado, como proceder? “Não existe receita de bolo porque é uma transformação que você vai ter que operar no relacionamento do animal com o meio ambiente e isso é bem complicado”, diz a especilista. Em todo caso, pode-se tentar adestrá-lo. “O adestramento básico de obediência não adianta nada. Mas um adestrador dedicado, que compreenda que as mudanças fundamentais precisam acontecer tanto com o animal quanto no relacionamento dele com a família, pode ajudar.”
O adestrador Pablo Webar trabalha há 25 anos no ramo e conhece bem esse enredo. “Recebo cachorros tímidos, submissos, medrosos, assustados e agressivos. Em todos os casos, eu os qualifico como inseguros. Alguns acham que mordendo e latindo superam isso”, analisa. A principal estratégia é reinserir os cães na matilha. “Quem os ensina a sobreviver são os outros cães. Essa socialização torna o animal mais independente, traz segurança.” O período em que o bicho passa longe da família pode ser doloroso, mas traz recompensas. “A gente quebra a rotina de cachorros mimados ou chantagistas, eles podem latir a noite inteira que ninguém estará lá para ceder. No fim, eles ficam mais confiantes”, garante.

A salsichinha Nina pensa que é gente, conta sua dona, a bibliotecária Fátima Jaegger (Carlos Silva/Ep.CB/D.A.Press)
A salsichinha Nina pensa que é gente, conta sua dona, a bibliotecária Fátima Jaegger

A bibliotecária Fátima Jaegger, 52 anos, tem três cães. Um deles, o pastor belga de seis anos Rousseau, recebeu adestramento porque era muito medroso. Ele foi adotado com quatro anos e ninguém sabe ao certo o motivo de tanta tensão. “Com o adestramento, ele está mais tranquilo, menos arredio. Antes Rousseau não conseguia nem de chegar perto de outros cães, hoje ele convive numa boa com as minhas outras cachorras”, afirma.As outras duas cadelinhas de Fátima têm personalidades bem diferentes. Nina, uma dachshund de sete anos, é do tipo carente e ciumenta. “Ela pede atenção o tempo inteiro, não deixa ninguém conversar, exige que brinquem com ela”, descreve. Já Puppy, uma shitzo de quatro anos, é mais independente e não demanda tantos afagos.
O comportamento de Nina foi responsável pela vinda de Puppy para a família. Fátima conta que tinha pensado em adestrá-la, mas decidiu trazer outra cachorrinha para contornar o problema. “Com a chegada de Puppy, Nina aprendeu a dormir na caminha dela, a comer ração pura, amenizou essa dependência. Acaba que um cachorro imita o outro”, explica. Quando perguntada sobre a diferença de criação entre as duas, Fátima não hesita e admite. “Eu mimei mais a Nina sim, com a Puppy eu estava mais experiente. Mas não foi só isso. A Nina veio para minha casa com 35 dias, não teve tempo de convívio com outros cães. Acho que por isso ela pensa que é gente,” diverte-se.

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